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Da depressão e certos terrores

Da depressão e certos terrores

Muita tinta já correu sobre este tema, muitos estudos, teses e certificações científicas já se publicaram e, inevitavelmente, muitas empresas farmacêuticas já ganharam, e continuam a ganhar, bom dinheiro à custa da nossa ‘tristeza’.

Afinal o que é que vem a ser isto da depressão? Fiquem tranquilos que não vou aqui dissertar cientificamente sobre a depressão nem, tão pouco, socorrer-me dos códigos do DSM (Manual de diagnóstico e estatística das perturbações mentais), essas etiquetas maravilhosas que os médicos adoram para definir o que nos perturba e de como a farmacopeia dos anti-depressivos tem sempre o milagre da cura, em forma de pílulas mais ou menos coloridas. Vou falar-vos enquanto Psicóloga, da experiência dos bancos da escola e da minha experiência pessoal. E é exactamente pela experiência pessoal que posso afirmar o quão fácil é sofrer-se por um erro de diagnóstico e ficar adicto a uma medicação perfeitamente desnecessária. Mas vou tentar seguir um certo fio conductor e não me dispersar muito nesta análise.

Todos somos diferentes, ainda que haja padrões de personalidade distintos onde nos podemos encaixar. Muitas vezes dizemos coisas como: «Fulano de tal está sempre triste» ou «Aquela pessoa parece que está sempre em festa, sempre bem disposta…» Verdade? Pois é, mas isso não quer dizer que a pessoa que parece estar sempre triste esteja necessariamente deprimida, ou que outra que esteja sempre bem disposta não possa, eventualmente, estar deprimida. Ou seja, cada um de nós tem maneiras diferentes de reagir face a situações idênticas; temos personalidades diferentes e isso, só por si, não é sintomático de nenhuma perturbação.

Mas vamos falar de depressão e de como ela se manifesta, excluídas que estejam outras patologias. A depressão pode surgir por variadíssimos motivos, sendo que o mais comum possa ser após um trauma emocional, como a perda de um ente querido, por exemplo. Na maioria das vezes, se o luto não for conseguido, o estado de tristeza assume o comando das emoções e manifesta-se das mais variadas formas tornando-se incapacitante, mesmo para as tarefas mais triviais. Uma pessoa gravemente deprimida chora sem motivo aparente, não consegue socializar, fecha-se em casa, e em si, chegando ao ponto de não sair da cama, de não fazer higiene pessoal ou, no limite, de não se alimentar. O que fazer? Há profissionais que podem ajudar sem as tais pílulas mágicas. Há que pedir ajuda e este é o acto mais difícil para alguém que está a entrar em depressão profunda. E os tais profissionais de que falei são Psicólogos. Então, e nestes casos, o que podem eles fazer? Avaliam, conversam e, aos poucos, vão ajudando a fazer o tal luto de que falei há pouco, de uma forma suave, sem pressões, mas eficientes. Continuando com o tema e sem fazer a apologia dos Psicólogos, que não é isso que aqui pretendo, passo a descrever alguns dos “efeitos secundários” da depressão. E são tantos! O mais comum é o chamado transtorno de pânico (vulgo ataque de pânico), podendo ser altamente incapacitante, principalmente quando dá lugar a fobias, como por exemplo a agorafobia (do grego ágora – assembleia; reunião de pessoas; multidão + phobos – medo) , i.e., medo de estar em espaços abertos ou no meio de multidões. Muitos destes estados de ansiedade podem surgir sem razão aparente, em que se sente o coração a bater descompassadamente e a pessoa tem a sensação de morte iminente. Há casos, muito frequentes, em que o sujeito não está perante um objecto fóbico. Neste ponto parece-me importante realçar que uma fobia não é, necessariamente, sinal de depressão e pode ser curada em contexto terapêutico cognitivo-comportamental. Mas este seria outro tema, a abordar noutro espaço.

Temos também determinados estados depressivos que podem surgir em resultado de situações de baixa autoestima que encontramos muitas vezes em pessoas tímidas, bulímicas ou anorécticas. Nestes casos a depressão não surge de perda/morte de alguém querido, mas antes num tipo de personalidade que, por variadíssimos motivos, pode conduzir a situações extremas, como o caso da bulimia ou anorexia. Os casos de adicções (álcool ou drogas) também não são de excluir. Imaginemos alguém com baixa autoestima que, fazendo parte de um determinado grupo com certos hábitos de consumo, sejam álcool ou drogas, só se sente integrado se imitar o comportamento do grupo, ou seja, o sentimento de pertença é fundamental para que se sinta mais ‘apto’. A prazo, este tipo de comportamento poderá terá consequências fatais.

Seja qual for o tipo de depressão, ou os motivos que a despoletam, os pacientes são pessoas que sofrem REALMENTE e é muito importante realçar este ponto. Não há muitos anos estas pessoas eram comummente apelidadas de preguiçosas e piegas e diziam-se coisas incríveis, como «as depressões são coisas de gente rica, que não tem mais nada que fazer…». Felizmente o conceito mudou, quando finalmente a depressão passou a ser considerada pela comunidade científica um problema de saúde pública, quando o abstencionismo e as taxas de suicídio começaram a ser devidamente analisadas.

Outro aspecto curioso, e que penso ser do conhecimento de todos, é o facto de que nos países do Sul, por norma mais pobres, a depressão tem menor prevalência que nos do Norte, em que as pessoas vivem melhor, leia-se, com mais qualidade de vida. Aqui o grande responsável é o Sol e o clima, de um modo geral. Sem romantismos, e uma vez mais com provas dadas pela ciência, sabemos que as horas de exposição solar têm toda a influência no nosso bem-estar emocional. Quantas vezes nos sentimos tristes naqueles dias de Inverno chuvosos e sem Sol? Pois é! Agora imaginemos o que se passa mais a Norte, em que os dias sem Sol são uma constante e as noites bem mais longas. Temos, portanto, o ambiente ideal para uma epidemia” de depressão, onde encontramos as mais elevadas taxas de suicídio.

Muito mais havia a dizer sobre a depressão e devo admitir que esta breve análise que acabei de expor é bastante redutora do problema. Deixo apenas um alerta: se sentirem que alguém, amigos ou família, possa estar a desenvolver um estado depressivo, não o minimizem e ajudem-no a pedir ajuda. Ela existe!

Naná Rebelo



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